Música para Crianças: o que os Pequenos Devem Ouvir?

Acho que se perguntarmos para qualquer pai ou educador se ele acha importante que as crianças tenham uma boa formação musical, todos certamente concordarão. A importância da música em nossas vidas é quase uma unanimidade. Muitos pais sentem que não tiveram acesso ao mundo da música e se preocupam em proporcionar isso para seus filhos. Entre os educadores muitos argumentam que a música, além de importante na formação cultural da criança, pode também auxiliar na aquisição de habilidades importantes para o aprendizado em geral.

Mas como isso deve ser feito?  Quais músicas devemos oferecer às crianças?

No Brasil, por muitos anos, o ensino de artes nas escolas se restringiu às artes plásticas. Só muito recentemente, principalmente após o ensino de música ter se tornado obrigatório por lei, existe uma incipiente experiência nessa área, tanto na rede pública como nas escolas privadas. Mas sabemos que a implementação dessa obrigatoriedade tem sido bastante problemática em nosso país.

Métodos tradicionais X métodos modernos

No século XX, uma série de educadores musicais aprofundaram bastante a questão dos melhores métodos para introduzir as crianças no mundo da música. A maioria deles enfatizou a necessidade de a experiência musical vir antes do ensino formal da música. Isso é realmente importante e está de acordo com vários estudos na área da psicologia da aprendizagem. Porém, junto com esses novos métodos que trazem certamente muitas contribuições, criou-se também uma falsa visão de que os métodos tradicionais não possuem nenhuma qualidade, já que partiriam de uma concepção autoritária do ensino, baseada na reprodução de modelos, na repetição sem sentido musical, na prática sem reflexão. Na outra ponta estariam os métodos modernos, que enfatizam as atividades de criação, percepção e reflexão.

O predomínio de uma visão simplista desta dicotomia entre métodos tradicionais e “modernos” tem levado a práticas de ensino totalmente ineficazes. Para simplificar, vamos analisar apenas uma questão:  a escolha do repertório a ser trabalhado com as crianças.

Diversidade cultural ou segregação cultural?

Na maioria dos textos sobre educação musical encontramos, implícita ou explicitamente, a ideia de que o ensino tradicional privilegia o repertório representado pela música de matriz europeia e que esta música não reflete a realidade cultural do país, é fruto de um processo de colonização que nos impôs à força a sua cultura.  Ao invés disso, deveríamos privilegiar as nossas verdadeiras origens, que estariam representadas pela cultura africana e indígena. Junto a essa volta às origens deveríamos também levar em conta a diversidade cultural brasileira, as músicas (nesses textos jamais se usa a palavra no singular) do Brasil, cada uma delas vinculada a determinado grupo social. Assim, as músicas da periferia urbana são o funk, o axé, o pagode, etc. e a educação dessas crianças deveria partir desse universo cultural. Ou seja, com um argumento baseado na valorização da diversidade cultural, na verdade há um movimento de segregação cultural que elitiza cada vez mais o acesso à cultura.

A visão de que a música europeia, que influenciou todo o mundo (ocidental e oriental) não merece ser ensinada por representar um processo de colonização, nos induz a dois grandes erros: negar a principal influência de nossa música, inclusive a popular, e oferecer às nossas crianças apenas uma música de qualidade mais que duvidosa, de cunho comercial e divulgada agressivamente pelos meios de comunicação de massa. Se pensarmos que a infância é o período em que estamos mais abertos a absorver todo o tipo de música, privar nossas crianças de escutar um grande e variado repertório pode trazer grandes danos.

Para terminar, uma dica para os pais: os dez episódios do filme “Música Maestro” (Make Mine Music), dos estúdios Disney (1946), em português, repleto de música americana/europeia com um toque brasileiro criado pelas dublagens primorosas. Um atrativo a mais é que o desenho, sempre cheio de detalhes, ainda não sofria com o peso do “politicamente correto”.

Fonte: Texto de Miguel Queiroz para o blog “Como Educar Seus Filhos”

Leia também: 5 dicas que vão te ajudar com a disciplina das crianças

 

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